Perturbação do Espetro do Autismo: o que precisa de saber
A Perturbação do Espetro do Autismo (PEA) é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por alterações persistentes na esfera da comunicação e interação social, associadas a padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades, em crianças ou adultos. A sua expressão clínica é heterogénea, com um espetro amplo de perfis cognitivos, linguísticos, adaptativos e sensoriais.
Embora as manifestações clínicas se verifiquem habitualmente no início da primeira infância, os sinais poderão acentuar-se à medida que as exigências sociais e adaptativas aumentam, pelo que o diagnóstico precoce e a implementação atempada de intervenções especializadas, são fundamentais na promoção do desenvolvimento de competências, da autonomia funcional e qualidade de vida da pessoa com PEA.
O que é a perturbação do espetro do autismo?
A Organização Mundial da Saúde descreve a PEA como um conjunto diversificado de condições do neurodesenvolvimento, caracterizadas por diferenças na comunicação e na interação social, bem como pela presença de padrões restritos e repetitivos de comportamento e interesses (World Health Organization, s.d.). Esta condição associa-se ainda a alterações neurobiológicas, incluindo diferenças na organização funcional e estrutural de redes cerebrais envolvidas na cognição social e no processamento de informação (Guo et al., 2024), estimando-se uma prevalência global de aproximadamente 1% da população, embora estudos mais recentes apontem para valores superiores (Zeidan et al., 2022; Lord et al., 2020).
O termo “espetro” reflete a sua ampla heterogeneidade, uma vez que na PEA registam-se diferentes níveis de funcionamento e de necessidade de suporte, bem como perfis cognitivos distintos, ou seja, enquanto algumas pessoas requerem um apoio maior e mais específico em diferentes contextos, outras apresentam uma elevada autonomia e um funcionamento bem-sucedido, por exemplo ao nível académico e profissional.
Quais os sinais de alerta?
As manifestações da PEA variam em função da idade, do nível de desenvolvimento e das características individuais. No entanto, existem sinais clínicos frequentemente observados em diferentes fases da vida.
Em crianças:
Comunicação e interação social
Contacto ocular reduzido ou atípico, com menor utilização do olhar para fins de interação social
Dificuldades na reciprocidade social e emocional, com respostas menos ajustadas nas interações
Reduzida partilha de interesses, emoções ou experiências com outras pessoas
Atraso ou particularidades no desenvolvimento da linguagem, incluindo uso não convencional da fala
Dificuldades na comunicação não verbal, incluindo gestos, expressões faciais e linguagem corporal
Comportamentos restritos e repetitivos
Movimentos motores repetitivos, como abanar as mãos ou balançar o corpo
Utilização repetitiva de objetos com função limitada
Forte necessidade de rotinas e resistência à mudança
Interesses restritos e intensos em áreas específicas
Processamento sensorial
Hiper ou hiporreatividade a estímulos sensoriais (por exemplo, som, luz ou toque)
Respostas atípicas a estímulos do ambiente, incluindo desconforto ou procura sensorial
Em adultos:
Cognição social e interação
Dificuldades na compreensão de normas sociais implícitas
Estilo de comunicação mais literal, com dificuldades na interpretação de ironia e linguagem não literal
Dificuldades na leitura de sinais sociais, como expressões faciais, tom de voz e linguagem corporal
Desafios na iniciação e manutenção de relações interpessoais
Necessidade de previsibilidade
Desconforto perante alterações inesperadas nas rotinas
Preferência por ambientes estruturados e previsíveis
Dificuldade na adaptação a novos contextos ou mudanças
Processamento sensorial
Alterações na sensibilidade sensorial em diferentes modalidades
Sobrecarga sensorial em ambientes altamente estimulantes, frequentemente associada a desconforto ou comportamentos de evitamento social
Como é feito o diagnóstico da perturbação do espetro do autismo?
O diagnóstico de PEA é essencialmente clínico, sendo a avaliação geralmente realizada por equipas multidisciplinares que podem incluir psicólogos, pedopsiquiatras, psiquiatras, neuropediatras, terapeutas da fala e terapeutas ocupacionais.
O processo diagnóstico envolve, de forma geral, uma entrevista clínica estruturada, a observação direta do comportamento e uma avaliação das competências sociais, comunicacionais e adaptativas, podendo ainda ser aplicados instrumentos de avaliação cognitiva e da linguagem. Atualmente, não existe nenhum exame laboratorial, imagiológico ou genético que permita confirmar o diagnóstico de forma isolada (American Psychiatric Association, 2022; World Health Organization, s.d.).
A identificação precoce da PEA permite implementar intervenções numa fase crítica do neurodesenvolvimento, potenciando ganhos significativos na comunicação, interação social, autonomia e adaptação funcional. Nesta esfera, os pais, educadores e cuidadores, desempenham um papel fundamental na deteção dos sinais iniciais, no fornecimento de informação clínica relevante e na implementação das estratégias terapêuticas recomendadas pelos profissionais de saúde.
Intervenção e acompanhamento
Porque a PEA é uma condição do neurodesenvolvimento complexa e heterogénea, associada à interação de fatores biológicos e ambientais, sem uma causa única identificada (American Psychiatric Association, 2022; World Health Organization, s.d.), a intervenção deverá ser individualizada e ajustada às necessidades específicas de cada pessoa.
O acompanhamento é habitualmente assegurado por uma equipa multidisciplinar, incluindo Psicologia Clínica, Psiquiatria/Pediatria do Neurodesenvolvimento, Terapia da Fala e Terapia Ocupacional, podendo integrar intervenções psicoeducativas, treino de competências sociais e abordagens comportamentais estruturadas, orientadas para o desenvolvimento de competências funcionais.
Nesta esteira, a consulta de Psicologia Clínica assume um papel central, tanto na avaliação e intervenção especializada, como no acompanhamento das crianças e adultos com PEA e das suas famílias, contribuindo para o suporte emocional, a adaptação funcional e a promoção do seu bem-estar ao longo da vida.
Para além da intervenção clínica, a construção de uma sociedade mais inclusiva depende também do papel ativo de cada cidadão na promoção da compreensão, aceitação e respeito pela neurodiversidade.
Artigo escrito: Helga Bento Bailote
Referências:
American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed., text rev.; DSM-5-TR). American Psychiatric Association Publishing.
Guo, Z., Tang, X., Xiao, S., Yan, H., Sun, S., Yang, Z., Huang, L., Chen, Z., & Wang, Y. (2024). Systematic review and meta-analysis: multimodal functional and anatomical neural alterations in autism spectrum disorder. Molecular autism, 15(1), 16. https://doi.org/10.1186/s13229-024-00593-6
Lord, C., Brugha, T. S., Charman, T., Cusack, J., Dumas, G., Frazier, T., Jones, E. J. H., Jones, R. M., Pickles, A., State, M. W., Taylor, J. L., & Veenstra-VanderWeele, J. (2020). Autism spectrum disorder. Nature reviews. Disease primers, 6(1), 5. https://doi.org/10.1038/s41572-019-0138-4
World Health Organization. (n.d.). Autism spectrum disorders. https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/autism-spectrum-disorders
Zeidan, J., Fombonne, E., Scorah, J., Ibrahim, A., Durkin, M. S., Saxena, S., Yusuf, A., Shih, A., & Elsabbagh, M. (2022). Global prevalence of autism: A systematic review update. Autism research : official journal of the International Society for Autism Research, 15(5), 778–790. https://doi.org/10.1002/aur.2696
Serviços disponibilizados
